quinta-feira, julho 18, 2024
SAÚDE

Tratamento do câncer de pulmão no SUS está defasado em 10 anos, mostra levantamento

Imagem: Mundo Educação Uol

Novo estudo realizado pelo Instituto Oncoguia comparou os tratamentos ofertados no SUS (Sistema Único de Saúde) com as diretrizes nacionais e internacionais para cinco tipos de câncer (mama, próstata, colorretal, pulmão e melanoma).

A pesquisa “Meu SUS continua diferente do seu SUS?”, divulgada na abertura do 14º Fórum Nacional do Oncoguia, na quarta-feira (8), em São Paulo, buscou identificar padrões e diferenças no tratamento oferecido pelos hospitais oncológicos do SUS para pacientes em todo o país.

Trata-se de uma nova versão do estudo “Meu SUS é diferente do seu SUS”, conduzido pelo próprio Instituto Oncoguia e divulgado em 2017. Será que, sete anos depois da primeira pesquisa, conseguimos ter protocolos de tratamento mais atuais para enfrentar o câncer na rede pública?

Dos 318 hospitais que tratam o câncer pelo SUS, entramos em contato com 268 distribuídos por todo o país. Desse conjunto, 95 hospitais responderam a pesquisa, sendo que 64 forneceram informações suficientes e satisfatórias para serem analisadas. No estudo anterior, de 2017, tivemos resposta de 52 hospitais.

Vale destacar que todos os hospitais consultados no Amazonas, Amapá, Pará, Roraima, Tocantins e Distrito Federal responderam ao nosso chamado. O oposto aconteceu em relação ao Acre, Mato Grosso e Pernambuco, que não enviaram informações.

A análise criteriosa dos dados obtidos sobre os cinco tipos de câncer está em andamento, mas já é possível divulgar os primeiros resultados referentes ao câncer de pulmão.

O tumor é o 4º mais incidente no país, porém figura em primeiro lugar em número de mortes, de acordo com dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer).

O desafio de padronizar

As informações enviadas por 43 hospitais sobre os tratamentos sistêmicos (quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo) para o câncer de pulmão foram comparadas com três documentos de referência.

Optamos por pedir dados sobre essas modalidades de tratamento, e não de cirurgias ou radioterapia, porque a terapia sistêmica é mais facilmente reprodutível nas Unidades de Alta Complexidade (Unacon) ou Centros de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) da rede pública.

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Nós comparamos os protocolos compartilhados pelos hospitais com três documentos de referência: as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas (DDTs) do Ministério da Saúde, a Lista de Medicamentos Essenciais da OMS (Organização Mundial da Saúde) e a escala usada pela Sociedade Europeia de Oncologia Médica (conhecida pela sigla ESMO, em inglês) para categorizar medicamentos oncológicos pelo seu benefício clínico e efetividade, a ScoreCard MCBS.

Primeiramente, vimos que a conformidade desses protocolos com as DDTs do Ministério da Saúde e com as diretrizes da OMS e da ESMO variou consideravelmente. A padronização ainda é um desafio.

Para se ter ideia, apenas 22 hospitais com protocolos para câncer de pulmão que participaram da pesquisa conseguem oferecer 100% do tratamento preconizado pela DDT. O mesmo ocorre em relação à Lista de Medicamentos Essenciais da OMS.

Quase nenhum hospital (98%) conta com a oferta de imunoterapia, abordagem considerada central no enfrentamento da doença nos dias atuais. Ela é feita com medicamentos biológicos que estimulam o sistema imune de diversas maneiras para combater infecções e o câncer.

Outra constatação preocupante foi que 51% dos hospitais respondentes não oferecem os medicamentos erlotinibe e gefitinibe, destinados a pacientes com mutações EGFR (de ativação do receptor de fator de crescimento epidérmico tirosina quinase) e foram incorporados ao SUS em 2013, sendo recomendados na DDT.

Ambos pertencem ao grupo das terapias-alvo, que são substâncias endereçadas a receptores específicos nas células do câncer.

Além da falta de uniformidade na oferta de medicamentos, o estudo do Oncoguia destacou o impacto da desatualização da Diretriz e Diagnósticas e Terapêutica do Ministério da Saúde para o tratamento do câncer de pulmão.

Atualizada em 2014, a DDT para pulmão, não inclui diversos tratamentos desenvolvidos na última década, como novos medicamentos em imunoterapia e terapias-alvo. Por serem mais direcionados, essas terapias geram menos internações, menores taxas de recidiva e de complicações, trazendo maior benefício clínico, tempo de vida e qualidade de vida aos pacientes.

Casos avançados

Ao analisar a disponibilidade de imunoterapia e terapia-alvo, nosso estudo viu que apenas 4% dos hospitais respondentes contam com medicamentos recomendados pela Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO) para o tratamento de câncer de pulmão avançado.

Nenhum hospital participante do estudo apresenta o medicamento crizotinibe, por exemplo, entre as opções terapêuticas contidas em seus protocolos. A medicação é destinada a casos avançados de câncer de pulmão com mutação no gene ALK e foi incorporada ao SUS pelo Ministério da Saúde em 2022. Como constatou o nosso levantamento, ainda não está disponível.

Quanto aos medicamentos usados em quimioterapia, 38% dos hospitais respondentes não oferecem os tratamentos classificados como mais efetivos para os pacientes de acordo com a lista da ESMO.

A conclusão é que estamos usando parâmetros antigos e fracos como recomendação ou padrão para tratar os pacientes.

Mais um ponto crítico evidenciado pela pesquisa é a desigualdade regional em relação à disponibilidade de tratamentos. Na região Centro-Oeste, por exemplo, nenhum hospital participante da pesquisa dispõe das terapias sistêmicas mais atuais.

Além das dificuldades de financiamento, a falta de acesso a esses medicamentos já aprovados para uso no SUS ocorre também ocorre porque a incorporação dessas drogas não foi acompanhada das adequações necessárias.

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Não houve, entretanto, uma atualização do valor de reembolso para o tratamento da doença, que é de alta complexidade, e nem a reorganização das diretrizes do cuidado oncológico. Isso inviabiliza a oferta de novas opções terapêuticas no sistema público.

Embora existam avanços em termos de documentação e disponibilidade de informações, a falta de acesso a medicamentos e terapias atualizadas e as desigualdades regionais continuam sendo um desafio significativo.

Para garantir um tratamento mais justo e igualitário, é essencial que as diretrizes e protocolos sejam atualizados regularmente para refletir as melhores práticas e evidências disponíveis.

Medidas urgentes precisam ser adotadas para reduzir as disparidades existentes e garantir que os pacientes, independentemente de sua origem socioeconômica, tenham acesso a tratamentos de qualidade e equitativos.

A saúde de milhares de brasileiros depende disso.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ver a versão original.

Fonte: Folha Uol

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